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Em casa
Em casa
Os pesquisadores que participaram da expedição à RDS Cujubim, que durou 30 dias, definem a viagem como um sucesso. Os resultados para todos os grupos amostrados, répteis, anfíbios, mamíferos, aves e plantas foram surpreendentes. Foram encontradas 100 espécies de repteis e anfíbios e mais 380 aves, sendo que há possibilidade de novas espécies de aves e anfíbios.
As plantas, por serem um grupo muito diverso, ainda precisarão de análises mais minuciosa para que se possa determinar o número de espécies encontradas. " Agora vamos produzir os relatórios do inventário biológico, que servirão de auxílio para a elaboração do plano de gestão da RDS Cujubim" conta Raquel Carvalho .
Outro objetivo da viagem era a capacitação da extração do óleo de copaíba para os moradores da RDS. As técnicas, para extração, foram repassadas para os moradores de quatro comunidades - Paraíso, São Raimundo, Goiabal e Pirarucu. Houve também reuniões para tratar do processo de consolidar o Conselho Deliberativo da RDS Cujubim.
Pingo e Raquel contaram que ouviram esturros de onça durante o dia. Já o Sr. Luís, morador da comunidade Paraíso e o pesquisador André Raveta além de ouvir, chegaram a ver uma onça pintada (Panthera onca).
Raquel, coordenadora da expedição, agradece a todos aqueles que diretamente ou indiretamente trabalharam para que essa expedição fosse o sucesso que foi. "Agradecemos também ao Ibama e a polícia Federal de Tefé que vistoriaram o material coletado para que pudesse ser embarcado para o Museu Emílio Goeldi, em Belém, completa Raquel.
31
- Março - 2006
A caminho de casa
Os pesquisadores acabaram de fazer as colheitas. O treinamento com as comunidades foi concluido e já estamos no barco a caminho de casa, relata Raquel. Infelizmente, o sinal está ruim, mas, conforme formos descendo o rio e nos aproximando de Jutaí, onde provavelmente chegaremos amanhã, certamente será possível fazer contato. Estamos muito satisfeitos com os resultados da expedição. Temos certeza de que teremos muitas novidades após as analises dos materiais coletados, conta Carvalho.
30
- Março - 2006
Quase no fim - relato feito por Raquel Carvalho
Estamos longe de casa há quase um mês. Está tudo bem, mas o cansaço tem pesado bastante nesses últimos dias. No domingo chegamos ao último ponto de coleta, que fica no Rio Mutum.
Mesmo cansados, os pesquisadores continuam trabalhando muito. Ontem, o Pingo - Adriano Jerozolimski, que também é biólogo - passou mais de duas horas procurando uma cobra da espécie (Chironius scurrulus). Ela tinha cerca de dois metros e foi vista na trilha que a equipe usa para entrar no mato. Como havia movimento dos pesquisadores no caminho, a cobra fugiu em direção a um igarapé, onde entrou em um buraco bem fundo. Mas o Pingo ficou um tempão cavando e não sossegou enquanto não a encontrou.
A equipe de herpetofauna (anfíbios e répteis) já comemora o registro de 98 espécies. Porém, em relação às outras áreas de amostragem, esse foi o ponto que apresentou menos espécies e indivíduos.
Temos mais uma possível espécie nova de planta. Ela é da família Poligonaceae e é bem diferente das espécies conhecidas pelos especialistas.
De mamíferos, entre as espécies avistadas e coletadas, já são cerca de 100 exemplares. Destas, há 13 espécies diferentes de macaco. A principal observação da equipe em relação aos mamíferos é que há uma variação morfológica (cor da pelagem e tamanho do bicho, entre outros fatores) muito grande das espécies coletadas em diferentes áreas.
O grupo de pesquisadores já fala na possibilidade de voltar à RDS Cujubim no verão para fazer outras amostragens em uma época mais seca que essa. Ainda não temos a previsão de quando, nem como seria, mas a idéia e o interesse já começam a germinar.
No final da tarde de sábado (01), saímos da RDS em direção à Jutaí. Como essa viagem dura pelo menos 20 horas, o provável é que cheguemos à cidade no final do dia seguinte e lá passaremos a noite. Seguimos para Tefé na segunda e a previsão é que no dia 07 todos já estejam em seus respectivos lares (Manaus ou Belém).
24
- Março - 2006
Novidades - relato feito pelo Pingo (Adriano Jerozolimski)
Estamos de volta. Nunca mais demos notícias devido à falta de tempo e à correria por aqui. Em primeiro lugar, acho importante falar que o André está bem. Depois de tomar os antibióticos, o pé dele desinchou. Ele já está em forma.
Estamos muito cansados, mas ainda empolgados com a riqueza e com as descobertas feitas a cada dia. Na última vez em que ligamos, estávamos subindo o Rio Jutaí, rumo à comunidade Pirarucu. De lá, viemos para o terceiro ponto de coleta: a colocação Boa Vista, um lugar onde era feita a extração da seringa durante o ciclo da borracha na Amazônia (1879-1912). Não montamos acampamento no local, continuamos a dormir no barco, que está atracado próximo à casa de um ribeirinho.
Uma coisa desagradável que aconteceu nos últimos dias é que três pessoas contraíram a malária e tiveram que deixar a equipe. Uma delas foi o Raimundo, que integra a equipe de herpetofauna. Ele voltou às pressas para Belém (foi de voadeira até Jutaí e, de lá, seguiu direto à capital paraense de avião), mas passa bem. Os outros dois são moradores da RDS que ajudavam no grupo de apoio como guias. Eles também já estão fazendo o tratamento, tomando as medicações necessárias e fora de perigo.
Os piuns voltaram a nos incomodar muito. Apesar de estar muito calor, estamos totalmente cobertos. Não há como deixar espaço livre: enrolamos nossas cabeças com camisas e sobra apenas espaço para os olhos. Os que trouxeram luvas protegem também as mãos. Nesse momento, por exemplo, enquanto falo no telefone, a Raquel fica abanando para afastar os mosquitos.
Mas temos grandes e boas novidades. É isso o que faz todos os sacrifícios valerem a pena. A equipe continua bem unida, o espírito de grupo sempre presente. O Alexandre (ornitólogo) registrou um pássaro da família Cuculidae, gênero Neomorphos. Não há nenhum registro desse bicho na coleção do Museu Goeldi e parece não haver descrição dele na literatura. É possivelmente mais uma espécie inédita para a Ciência coletada pela expedição.
Temos uma rã que pode ser também um novo registro para a Ciência . Ela é da família Leptodactilidae. Falando na equipe de herpetofauna, vale ressaltar que em 12 dias de pesquisas, mais de 88 espécies de répteis e anfíbios já foram encontradas. Para se ter uma idéia, durante um mesmo período no Parque Nacional da Amazônia e com um número maior de armadilhas, foram registradas 69 espécies. Parte dessa diferença pode ser explicada porque aqui parece haver, entre outras coisas, uma maior variedade de ambientes.
O registro fotográfico também está sendo muito bom. Fiz bastantes imagens de todos os trechos da viagem. Agora, por exemplo, o cenário é do rio de água escura e floresta inundada. Acredito que as fotos analógicas ficarão ainda melhores do que as digitais que tenho aqui.
Um dos tipos de material difícil de analisar é o de plantas. Como é um grupo muito diverso, as coletas só podem ser analisadas quando comparadas às que existem nas coleções.
O dia-a-dia aqui é bastante movimentado. Alguns membros da equipe fizeram uma pequena reforma no telhado do laboratório instalado no barco. Inicialmente ele era coberto por uma lona, mas foi trocado por folhas da palmeira ubin (Geonoma spp). Isso tornou a temperatura muito mais agradável para o quem faz análises no barco.
Vimos a ariranha (Pteronura brasiliensis) uma espécie considerada globalmente ameaçada de extinção pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza), o que demonstra que, além de extremamente rico em espécies animais e vegetais, o local é muito bem preservado.
Nossa alimentação tem sido composta por açaí, que é coletado e produzido pelos moradores locais que apóiam a equipe, a macaxeira (conhecida como aipim em outras regiões) e por peixes capturados por nós, como a branquinha, a pescada e o pacu.
No próximo domingo, seguiremos para o último ponto de coleta, que fica no Rio Mutum. A previsão é que a viagem dure cerca de 24h, como aconteceu nessa última que nos trouxe até o ponto de Boa Vista.
Hoje, a ligação via satélite está durando bastante, é bom conseguirmos atualizar as informações do blog. Assim que tivermos mais uma oportunidade, mandaremos notícia. Até lá.
16
- Março - 2006
Contratempos
Ontem, foi um dia difícil. Choveu bastante e isso atrapalhou os grupos de coletas. O rio Jutaí está muito cheio e, em vários trechos, a mata está abaixo d'água. Os herpetólogos (pesquisadores de anfíbios) foram os únicos que se beneficiaram com a chuva.
O André Raveta, primatólogo (que estuda macacos), machucou o pé andando no mato. O corte infeccionou muito e tivemos que entrar em contato com o escritório do Programa Amazônia da CI-Brasil, em Belém, para que eles estejam preparados caso ele precise voltar antes da equipe. Esperamos que isso não aconteça, mas é preciso que estejamos preparados.
Ainda estamos decidindo se continuamos o percurso no rio Jutaí ou se voltaremos ao rio Curuena para encontrar com o outro barco que abastecerá o nosso tanque.
Hoje falamos com o Pingo (Adriano Jerozolimski), fotógrafo da expedição e pesquisador da CI-Brasil. Ele falou um pouco do que estava achando da expedição. “A expedição tem surpreendido a toda nossa equipe de pesquisadores”.
"Os grupos já amostrados pela equipe mostram claramente que além de espécies novas, eles encontram indivíduos pouco conhecidos e estudados. Certamente esta expedição será muito rica para a ciência. Visitamos regiões muito distintas das outras, onde a vegetação é bastante diversa. Agora estamos passando pela área de Várzea (conhecida também por região alagada)".
Hoje, visitamos uma comunidade recém-formada, conta Pingo. Essas famílias estão juntas a apenas três meses e começam a se estruturar. Um dos principais desafios para a implantação de infra-estrutura na RDS é a distância que separam as famílias. Fica muito difícil implantar uma escola, por exemplo, para crianças que moram a quilômetros de distância.
9
- Março - 2006
Ainda No rio Curuena
Hoje, chegamos ao Médio Curuena, no local escolhido para iniciar os nossos estudos. Demoramos quase cinco horas para montar o acampamento, que se divide em laboratório (onde os pesquisadores farão suas análises), cozinha e dormitório. Aqui, vamos nos dividir. Uma parte da equipe realizará as pesquisas, enquanto a outra seguirá rumo às duas comunidades da Reserva. Ficaram no local os pesquisadores, os técnicos, os assistentes de campo e dois moradores, que conhecem a área e auxiliarão nas pesquisas. Esse grupo de pesquisa permanece nesta base até segunda-feira, dia 13. Depois, utilizando quatro voadeiras, seguirá em direção a foz do Rio Curuena para encontrar o segundo grupo. O segundo grupo é composto por apenas três integrantes da equipe (Ana Flávia Ceregati, Francisco Assis e eu, Raquel). Estaremos embarcando rumo às comunidades da RDS: Goiabal e São Raimundo. O objetivo da visita é dar continuidade aos trabalhos de organização comunitária e oferecer treinamento sobre a extração do óleo da copaíba. A expectativa é que sejamos muito bem-recebidos pelos moradores, como sempre acontece. Para essas pessoas, a chegada do barco representa um motivo de festa e a esperança de dias melhores.
8
- Março - 2006
No rio Curuena
Por volta das 14h, entramos no Rio Curuena. Ele é mais estreito que o Rio Jutaí e o seu nível depende muito da quantidade de chuvas na região. Estamos na estação denominada de “Inverno Amazônico”, que se estende de dezembro a abril. Por isso, tivemos a sorte de encontrar o Rio Curuena bem cheio. Em outros períodos do ano, o rio seca bastante e mesmo barcos com o calado baixo não conseguem seguir viagem.
A viagem tem sido tranqüila, principalmente porque depois que entramos no Rio Curuena, os piuns nos deram um pouco de sossego. As paisagens continuam lindas, com as florestas de terra firme chegando até às margens do rio. A maior parte da floresta apresenta-se com nenhuma ou pouca influência humana. Durante horas ficamos sem avistar uma pessoa sequer. A riqueza biológica da região enche os olhos: árvores altas e sinais de vida selvagem em todos os lugares. Bandos com centenas de periquitos voam sobre a floresta e, no rio, os botos abundam. Finalmente, vimos os cujubins (Aburria cumanensis) – a ave que deu o nome da Reserva. Os cujubins são aves sensacionais para se ver. São aves grandes, que chegam a pesar cerca de 1,5 kg. Preferem florestas não perturbadas e são encontradas na copa das árvores, andando sobre os galhos mais grossos. O vôo é pesado e barulhento, podendo ser ouvido a distância. Os cujubins se alimentam principalmente de frutos. Devem desempenhar um papel muito importante de dispersores de sementes de árvores com grande potencial econômico, pois geralmente estas árvores possuem sementes grandes que só podem ser dispersas por animais também grandes. Por causa do seu tamanho, os cujubins são muito caçados em todos os lugares da Amazônia, por isso, são raros onde as populações rurais são densas.
7
- Março - 2006
Ataque de Mosquitos – Os terríveis piuns
Contemplar a extraordinária biodiversidade amazônica e procurar por novas espécies ou fenômenos biológicos únicos é um sonho que poucos podem realizar. Entretanto, tudo tem o seu preço. O nosso até agora tem sido os constantes ataques de mosquitos e os piuns, de diferentes espécies. Os piuns, conhecidos como borrachudos em outras regiões, nos perseguem desde o início da viagem no Rio Jutaí. Eles são minúsculos (1-5 mm), são escuros, tem pernas curtas e asas largas. Eles atacam o dia todo. A picada do pium é característica, pois surge logo depois da picada uma pequena tumoração com um ponto central vermelho. Apenas as fêmeas procuram o nosso sangue, principalmente se elas copularam recentemente. Procuramos nos cobrir o máximo possível, para não deixarmos espaços abertos para as fêmeas de piuns nos atacarem. Apesar de tudo, continuamos mantendo o bom humor e estamos ansiosos para iniciar as nossas pesquisas.
6
- Março - 2006
Entrando na RDS
Hoje pela manhã, entre 8h e 8h30, o barco finalmente chegou à Reserva. É um grande alívio. Organizar uma expedição desse porte sempre é um grande desafio, pois envolve uma infra-estrutura fantástica e uma articulação perfeita entre o pessoal de pesquisa e o pessoal de apoio. Felizmente, todos os membros da expedição possuem grande experiência em trabalhos deste tipo. São pesquisadores de renome internacional, que não rejeitaram a oportunidade de explorar uma região nunca antes visitada por cientistas. Agora, vamos rumar em direção ao Rio Curuena, nosso primeiro ponto de coleta. Dos quatro rios que serão visitados, o Curuena é o menor e que mais rapidamente entrará na fase de baixa, ou seja, a época do ano em que ocorre uma diminuição brutal do volume de suas águas. Precisamos estudar logo esse ponto, antes que o rio seque e o navio fique sem condições de passar.
5
- Março - 2006
Preparando o local de trabalho
A viagem é longa, sabíamos disso. O Jutaí é um rio lindo, com ricas florestas de várzea em suas margens. Poderíamos passar horas e horas observando o rio e suas margens, procurando por botos ou contando as aves aquáticas como as anhingas, mergulhões e martins-pescadores que abundam ao longo do rio, mas precisamos nos preparar para o que vem pela frente. Por isso, aproveitamos o dia para montar no barco o laboratório em que faremos as análises de tudo o que for coletado durante as pesquisas de campo.
4
- Março - 2006
Subindo o Rio Jutaí
Acordamos cedo ouvindo os cantos dos pássaros que se movimentam entre as copas das árvores da cidade. Papagaios aos bandos movimentam-se entre as áreas de florestas próximas. Com um pouco de esforço, dá para ouvir o canto dos tucanos. Após o café da manhã, embarcamos os equipamentos da viagem. Terminamos isso rapidamente, ainda pela manhã. Entretanto, o barco apresentou alguns problemas de última hora e por isso continuamos nossa viagem somente às 13h. A embarcação começou a subida do Rio Jutaí no mesmo dia, com destino à entrada da Reserva.
3
- Março - 2006
Ansiosos para chegar em Jutaí
Apesar da beleza do Solimões, estávamos ansiosos para chegar em Jutaí para realmente conhecer a paisagem que nos aguardava. Às 23h30m do dia seguinte (03), chegamos na cidade de Jutaí, onde passamos a noite. Jutaí é uma cidade fundada em 1955, pequena, bem organizada e totalmente integrada com a maravilhosa natureza ao seu redor. Sua população atual é estimada em torno de 22.500 habitantes. O seu povo é alegre, corajoso e muito receptivo. O rio é o único acesso à cidade, pois não existe aeroporto e nem uma pista de pouso adequada. Apesar disso, o comércio mostra-se próspero, com muitas lojas e armazéns em diferentes pontos da cidade.
2
- Março - 2006
O início de tudo
No dia 02 (quinta-feira), às 16h, a expedição deixou Tefé em direção à Jutaí, município onde está localizada a RDS Cujubim. A viagem segue o rio Solimões em direção a oeste, até chegarmos à sua confluência com o Rio Jutaí. O Rio Solimões é o maior e mais importante rio do planeta, responsável por 15 a 16% de toda a água doce descarregada em todos os oceanos anualmente. O seu poder é fantástico. Suas águas barrentas, ricas em sedimentos e nutrientes, vão formando ilhas ao longo de sua jornada em direção ao Atlântico. Algumas ilhas são pequenas e outras grandes, mas todas são cobertas por árvores pioneiras como as embaubeiras, uma das mais comuns plantas na região. O Rio Solimões tem muitos nomes. Começa a ser chamado de Ucayali, lá no Peru, próximo dos Andes, depois passa ser denominado de Amazonas, no Peru e Colômbia. Após entrar no Brasil, passa a ser chamado de Solimões. Do seu encontro com o Rio Negro para frente, é que ele é conhecido como Amazonas. Todo o brasileiro que se preza deveria viajar pelo Solimões-Amazonas pelo menos uma vez na vida. Talvez assim, a importância desse rio para o Brasil e para o mundo pudesse ser mais amplamente reconhecida.
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